“O MOVIMENTO CIRCULAR E O ...
Por C.G.
Jung e R. Wilhelm
A união
dos opostos num nível mais alto da consciência, como já mencionamos, não
é uma questão racional e muito menos uma questão de vontade, mas um processo de
desenvolvimento psíquico, que se exprime em símbolos. Historicamente, este
processo sempre foi representado através de símbolos e ainda hoje o
desenvolvimento da personalidade individual é figurado mediante imagens
simbólicas. Tais fatos se me apresentaram da seguinte maneira: os produtos das
fantasias espontâneas, de que tratamos acima, se aprofundavam e se concentravam
progressivamente em torno de formações abstratas, que parecem representar
“princípios”, no sentido dos “archai” gnósticos. Quando as fantasias tomam a
forma de pensamentos, emergem formulações intuitivas de leis ou princípios
obscuramente pressentidos, que logo tendem a ser dramatizados ou
personificados. (Voltaremos depois a este ponto). Se as fantasias forem
desenhadas, comparecem símbolos que pertencem principalmente ao tipo do
“mandala”. Mandala significa círculo e particularmente círculo mágico. Os
mandalas não se difundiram somente através do oriente, mas também são
encontrados entre nós. A Idade Média e em especial a baixa Idade Média é rica
de mandalas cristãos. Em geral o Cristo é figurado no centro e os quatro
evangelistas ou seus símbolos, nos pontos cardeais. Esta concepção deve ser
muito antiga, porquanto Horus e seus quatro filhos foram representados da mesma
forma, entre os egípcios. (Como se sabe, Horus e seus quatro filhos têm uma
relação estreita com Cristo e aos quatro evangelistas). Mais tarde, encontramos
um inegável e interessante mandala em Jacob Boheme, em seu livro sobre a alma.
É evidente que ele representa um sistema psicocósmico, de forte coloração
cristã. É o “olho filosófico”, ou o “espelho da sabedoria”, denominações estas
que mostram de modo claro tratar-se de uma summa de sabedoria secreta. A
maioria dos mandalas tem a forma o quatérnio, o que lembra o número básico: a
tetraktys de uma flor, de uma cruz ou roda, tendendo nitidamente para
pitagórica. Entre os índios Pueblo os mandalas são desenhados na areia, para
uso ritual. Entretanto, os mandalas mais belos são os do budismo tibetano. Os
símbolos de nosso texto acham-se representados nesses mandalas. Encontrei
também desenhos mandálicos entre doentes mentais, entre pessoas que certamente
não tinham qualquer idéia das conexões aqui mencionadas.
Algumas de minhas pacientes de sexo feminino não desenhavam, mas dançavam
mandalas. Na Índia, isto se chama: mandala nritya, que significa dança
mandálica. As figurações da dança têm o mesmo sentido que as do desenho. Os
próprios pacientes quase nada podem dizer acerca do sentido simbólico dos
mandalas, mas se sentem fascinados por eles. Reconhecem que exprimem algo e que
atuam sobre seu estado anímico subjetivo.
Nosso texto promete “revelar o segredo da Flor de Ouro do grande Uno”. A flor
de outro é a luz, e a luz do céu é o Tao. A flor de outro é um símbolo
mandálico que já tenho encontrado muitas vezes nos desenhos de meus pacientes.
Ela é desenhada a modo de um ornamento geometricamente ordenado, ou então como
uma flor crescendo da planta. Esta última na maioria dos casos é uma formação
que irrompe do “fundo da obscuridade, em cores luminosas e incandescentes,
desabrochando no alto sua flor de luz (num símbolo semelhante ao da árvore de
Natal). Tais desenhos exprimem o nascimento da flor de outro, pois, segundo o
Hui Ming Ging, a “vesícula germinal” é o “castelo de cor amarela”, o “coração
celeste”, os “terraços da vitalidade”, o “campo de uma polegada da casa de um pé”,
a “sala purpúrea da cidade de jade”, a “passagem escura”, o “espaço do céu
primeiro”, o “castelo do dragão no fundo do mar”. Ela é também chamada a
“região fronteiriça das montanhas de neve”, a “passagem primordial”, o “reino
da suprema alegria”, o “país sem fronteiras” e o “altar sobre o qual
consciência e vida são criadas”. “Se o agonizante não conhecer este lugar
germinal”, diz o Hui Ming Ging, “não em encontrará a unidade de consciência e
vida nem mesmo em mil nascimentos, ou dez mil eons”.
O princípio, no qual tudo ainda é um e que portanto parece ser a meta mais
alta, jaz no fundo do mar, na escuridão do inconsciente. Na vesícula germinal,
consciência e vida (ou “essência”e “vida”, isto é, sing-ming) são ainda “uma só
unidade”, “inseparavelmente misturada como a semente do fogo no forno da
purificação”. “Dentro da vesícula germinal está o fogo do soberano”. “Todos os
sábios começaram a sua obra pela vesícula germinal”. Notem-se as analogias com
o fogo. Conheço uma série de desenhos de mandalas europeus, onde aparece uma
espécie de semente vegetal envolta em membranas, flutuando na água. A partir do
fundo, o fogo sobe e penetra a semente, incubando-a de tal modo, que uma grande
flor de outro cresce da vesícula germinal.
Esta simbólica refere-se a uma espécie de processo alquímico de purificação e
de enobrecimento; a escuridão gera a luz e a partir do “chumbo da região da
água”cresce o ouro nobre; o inconsciente torna-se consciente, mediante um
processo de vida e crescimento. (Em total analogia com isto, lembremos a
kundalini da ioga hindu). Desse modo se processa a unificação de consciência e
vida.
Quando meus pacientes projetam tais imagens, não o fazem sob sugestão; elas
ocorriam muito antes que eu conhecesse seu significado ou suas relações com as
práticas do oriente. Essas imagens brotam espontaneamente de suas fontes.
Uma delas é o inconsciente, que produz de modo natural fantasias dessa espécie.
A outra fonte é a vida que, quando vivida com plena devoção, proporciona um
pressentimento do si-mesmo, da própria essência individual. Ao expressar-se
esta última nos desenhos, o inconsciente reforça a atitude de devoção à vida.
De acordo com a concepção oriental, o símbolo mandálico não é apenas expressão,
mas também atuação. Ele atua sobre seu próprio autor. Oculta-se neste símbolo
uma antiqüíssima atuação mágica, cuja origem é o “circulo de proteção”, ou
“círculo encantado”, cuja magia foi preservada em numerosos costumes populares.
A meta evidente da imagem é traçar um “sulcus primigenius”, um sulco mágico em
redor do centro, que é o templo ou temenos (área sagrada) da personalidade mais
íntima, a fim de evitar uma possível “efluxão”ou preservá-la, por meios
apotropaicos, de uma eventual distração devido a fatores externos. As práticas
mágicas não são mais do que projeções de acontecimentos anímicos, que refluem
sobre a alma como uma espécie de encantamento da própria personalidade, isto é,
o refluxo da atenção apoiada e mediada por um grafismo. Em outras palavras, é a
participação de uma área sagrada interior, que é a origem e a meta da alma. É
ela que contém a unidade de vida e consciência, anteriormente possuída, depois
perdida, e de novo reencontrada.
A unidade de vida e consciência é o Tao, cujo símbolo, a luz branca central, é
semelhante à que é mencionada no Bardo Todol. Esta luz habita na “polegada
quadrada”, no “rosto”, isto é, entre os dois olhos. Trata-se da visualização do
“ponto criativo”, cuja intensidade é desprovida de extensão, e que deve ser
pensada juntamente com o espaço da “polegada quadrada”, símbolo daquilo que tem
extensão. Ambos reunidos são o Tao. A essência ou consciência (sing) se exprime
mediante o simbolismo da luz e representa a intensidade. A vida (ming) deverá
pois coincidir com a extensão. O caráter da primeira é yang, enquanto que o da
segunda é yin. A mandala já mencionada de uma jovem sonâmbula de quinze anos,
que observei há trinta anos, tem no centro uma “fonte de energia da vida” sem
extensão, cuja emanação espontânea colide com um princípio espacial oposto, em
perfeita analogia com a idéia fundamental do texto chinês.
O “aproximar-se circundando”, ou “circumambulatio”, exprime-se, em nosso texto,
através da idéia de “circulação”. Esta última não significa apenas o movimento
em círculo, mas a delimitação de uma área sagrada por um lado e, por outro, a
idéia de fixação e concentração; a roda do sol começa a girar, isto é, o sol é
vivificado e inicia seu caminho; em outras palavras, o Tao começa a atuar e
assume a direção. A ação converte-se em não-acão; tudo o que é periférico é
subordinado à ordem que provém do centro. Por isso se diz: “O movimento é outro
nome para significar domínio”. Psicologicamente, a circulação seria o ato de
“mover-se em círculo em torno de si mesmo”, de modo que todos os lados da
personalidade sejam envolvidos. “Os pólos de luz e de sombra entram no
movimento circular”, isto é, há uma alternância de dia e noite.
“A claridade do paraíso se alterna com a mais profunda e terrível das noites”.
O movimento circular também tem o significado moral da vivificação de
todas as forças luminosas e obscuras da natureza humana, arrastando com elas
todos os pares de opostos psicológicos, quaisquer que sejam. Isto significa
autoconhecimento através da auto-incubação (o “tapas” indu). Uma representação
originária e análoga do ser perfeito é o homem redondo de Platão, que reúne os
dois sexos.
Encontramos um dos paralelos mais impressionantes em relação ao que acabamos de
dizer, na descrição que EDWARD MAITLAND, colaborador de ANNA KINGSFORD, esboçou
acerca de sua experiência central. Na medida do possível usarei suas próprias
palavras. Ele descobrira que ao refletir sobre uma idéia, era como se
idéias afins ganhassem viabilidade, em longas séries. Aparentemente, remontavam
até sua fonte e esta, para ele, era o espírito divino. Concentrando-se nessas
séries, ele tentou avançar até sua origem.
“Eu não dispunha de qualquer conhecimento, nem tinha qualquer expectativa
quando me decidi a fazer esta experiência. Simplesmente, estava cônscio dessa
capacidade... sentado à minha escrivaninha, pronto para anotar os
acontecimentos segundo as series em que se sucediam. Resolvi manter a
consciência externa e periférica, sem preocupar-me com o distanciamento de
minha consciência interna e central. Não sabia se poderia voltar à primeira,
caso a deixasse, nem se poderia lembrar-me dos acontecimentos experimentados.
Mas finalmente o consegui, com um grande esforço; a tensão provocada pelo
esforço de manter os dois extremos da consciência ao mesmo tempo era
considerável! No começo senti como se estivesse subindo uma longa escadaria, da
periferia para o ponto cósmico, o solar e o meu próprio. Os três sistemas eram
diversos e, ao mesmo tempo, idênticos... Finalmente, num último esforço...
consegui concentrar os raios de minha consciência no foco almejado. Nesse
instante, como se uma repentina combustão fundisse todos os raios numa unidade,
ergueu-se diante de mim uma prodigiosa, inefável luz branca e brilhante cuja
força era tão intensa que quase caí para trás... Sabendo intimamente que não era
necessário perscrutar além dela, decidi certificar-me de novo; tentei
atravessar esse brilho que quase me cegava, a fim de ver o que continha. Com
grande esforço o consegui... Era a dualidade do Filho... o oculto tornara-se
manifesto, o indefinido, definido, o não-individuado, individuado: Deus como
Senhor, que prova através de sua dualidade, que é substancia e força, amor e
vontade, feminino e masculino, mãe e pai”.
Assim, ele considerou Deus como dois em um, da mesma forma que o homem. Além
disso, observou algo que é sublinhado em nosso texto, isto é, a “suspensão da
respiração”. Afirma que a respiração comum cessa, dando lugar a uma respiração
interna, como se outra pessoa, alheia a seu organismo físico, respirasse por
ele. Acrescenta que tal ser poderia consubstanciar a “enteléquia” de
Aristóteles, ou o “Cristo interno” do apóstolo |Paulo, “a individualidade
espiritual e substancial engendrada dentro da personalidade física e fenomênica
representando, portanto, o renascimento do homem num plano transcendental”.
Esta experiência autêntica contém todos os símbolos essenciais do nosso texto.
O próprio fenômeno, isto é, a visão da luz, é uma experiência comum a muitos
místicos, e indubitavelmente muito significativa, pois em todas as épocas e
lugares compareceu como o incondicionado, reunindo em si a maior for;Ca e o
sentido mais profundo. HILDEGARD VON BINGEN, personalidade significativa (mesmo
deixando de lado sua mística), escreve acerca de uma visão central que teve bem
semelhante à experiência acima citada:
“Desde minha infância”, diz ela, “vejo constantemente uma luz em minha alma,
mas não com o olhar externo, ou através dos pensamentos do coração; os cinco
sentidos também não tomam parte nesta visão. A luz que percebo não se localiza,
mas é muito mais clara do que uma nuvem transpassada pelo sol. Não consigo
distinguir nela nem altura, nem largura ou comprimento... O que vejo e aprendo
nessa visão perdura por muito tempo em minha memória. Vejo, ouço e sei ao mesmo
tempo, e aprendo o que sei num instante... Não reconheço nenhuma forma nesta
luz, se bem que de vez em quando nela vejo outra luz que, para mim, se chama a
luz viva... enquanto a contemplo me rejubilo, e toda a dor e tristeza se
desvanecem na minha memória...”
Por minha parte, conheço poucas pessoas que tiveram tais vivencias por
experiência direta. Na medida em que posso alcançar um fenômeno deste tipo,
acho que se trata de um estado de consciência agudo, intenso e abstrato, de uma
consciência “isenta” (v. abaixo) como HILDEGARD indica, tal estado permite a
conscientização de campos do acontecer anímico, que de outro modo ficariam
encobertos pelo obscuro. O fato de que em conexão com tal experiência haja um
desaparecimento freqüente das sensações gerais do corpo, indica que é retirada
destas últimas suas energias específica; provavelmente, mediante sua
transformação, a lucidez da consciência é exaltada. De um modo geral, o
fenômeno é espontâneo, aparecendo ou desaparecendo por impulso próprio. Seu
efeito é espantoso e quase sempre soluciona complicações anímicas, liberando a
personalidade interna de confusões emocionais e intelectuais, e criando assim
uma unidade de ser, experimentada em geral como uma “liberação”.
A vontade consciente não pode alcançar uma tal unidade simbólica, uma vez que a
consciência, nesse caso, é apenas uma das partes. Seu opositor é o inconsciente
coletivo que não compreende a linguagem da consciência. É necessário contar com
a magia dos símbolos atuantes, portadores das analogias primitivas que falam ao
inconsciente. Só através do símbolo o inconsciente pode ser atingido e
expresso; este é o motivo pelo qual a individuação não pode, de forma alguma,
prescindir do símbolo. Este, por um lado, representa uma expressão primitiva do
inconsciente e, por outro, é uma idéia que corresponde ao mais alto
pressentimento da consciência.
O desenho mandálico mais antigo que conheço é a “roda do sol” paleolítica,
recentemente descoberta na Rodésia. Ela também se baseia no número quatro.
Sinais que remontam a uma tal antiguidade da história humana repousam
naturalmente, nas camadas mais profundas do inconscientes e são captados lá,
onde a linguagem consciente se revela de uma impotência total. Tais realidades
não devem servir de campo para a imaginação, mas sim crescer novamente das
profundezas obscuras do esquecimento, a fim de expressar os pressentimentos
extremos da consciência, e a intuiç ão mais alta do espírito:
assim se funde a unidade da consciência presente com o passado originário da
vida.